
Como seu título de terra estava duplicado, outra
pessoa tinha registro da mesma propriedade, a empresa parou a negociação e
acionou a Justiça para expulsá-la. Sem renda fixa, Militão vive na casa de um
amigo e vendeu o carro para sustentar o marido e quatro filhos.
A situação tem se repetido. Em tese, as
famílias afetadas por Belo Monte devem receber uma indenização em dinheiro ou
ser reassentadas.
Mas há vários casos de famílias removidas
sem compensação e que se dizem até ameaçadas a aceitar a proposta da Norte
Energia. "Os técnicos diziam a elas: 'Ou você aceita ou vai para a rua e
briga na Justiça'", afirma a defensora pública Andréia Barreto. Segundo
ela, as ofertas são baixas e desconsideram algumas posses dos moradores.
A Norte Energia diz que indenizou todas as
famílias contatadas (leia abaixo).
Há dois tipos de casos de não indenização:
famílias desapropriadas por ordem judicial (que rejeitaram o acordo ou tiveram
problemas na documentação) e famílias que não eram donas da terra onde moravam,
e a empresa não concorda com a indenização. Na área de Belo Monte, havia 1.540
propriedades rurais. Dessas, a empresa já comprou 600.
Os problemas começaram a vir à tona nos
dois últimos meses. A Defensoria Pública do Pará ajuizou 13 ações pedindo o
reassentamento de pessoas excluídas da indenização. Outras dezenas de casos
estão em análise. Já houve 3 decisões liminares a favor dos moradores e 5
contrárias. Além disso, a Norte Energia entrou com 28 ações de desapropriação.
Dessas, 26 tiveram liminar pela expulsão das famílias. A indenização é
depositada na Justiça, sem previsão de pagamento.
RECONHECIMENTO
O Plano Básico Ambiental, redigido pela
própria empresa, diz que donos de imóveis e famílias que vivem ou trabalham no
local têm direito à indenização. Na prática, há falhas. A agricultora Suzete
Silva, 27, morou por três anos com o marido e quatro filhos na propriedade de
um agricultor em Vitória do Xingu. Trabalhavam na colheita de cacau. Com o
acordo entre proprietários e a Norte Energia, Suzete e a família perderam casa
e emprego em janeiro, sem nenhuma indenização.
PROTESTOS JÁ PARALISARAM OBRA POR 30 DIAS
A obra da usina hidrelétrica de Belo Monte,
no rio Xingu (PA), teve início em junho do ano passado e já totalizou 30 dias
parada por causa de protestos de operários, índios e ativistas ambientais.
Essas paralisações não chegaram a afetar
todos os canteiros de obras. O CCBM (Consórcio Construtor de Belo Monte) afirma
que as interrupções serão compensadas ao longo do cronograma. Atualmente, a
obra está em fase de escavações na casa de força principal e de conclusão dos
alojamentos internos dos operários. O desvio do rio Xingu, necessário para
fazer a água chegar à casa de força, está parado, à espera de autorização
ambiental.
O OUTRO LADO: EMPRESA DIZ QUE FAMÍLIAS
FORAM INDENIZADAS
A Norte Energia, empresa responsável por
Belo Monte, diz que "todas as famílias contatadas receberam"
indenização para sair de casa. A reportagem questionou a empresa sobre o caso
específico das duas agricultoras, mas não obteve resposta.
Sobre as 28 ações ajuizadas na Justiça
Federal pedindo a desapropriação de imóveis, a empresa diz considerar o número
"muito baixo" em relação às 600 já compradas por meio de acordo.
Sobre os relatos de ameaças aos moradores
durante as negociações, respondeu: "Em todos os processos de aquisição de
áreas no meio rural ou urbano, negociados pela Norte Energia, existem termos de
aceitação assinados pelos moradores". Em nota divulgada anteriormente
sobre o caso específico de uma das comunidades rurais, a empresa disse que "as
famílias sempre tiveram tempo para tomar decisão" e que "não houve
coerção ou indução".
A Norte Energia diz que o reassentamento
das famílias que optaram por essa modalidade de indenização não começou porque
a empresa negocia a compra dos terrenos para onde elas serão levadas.
De acordo com a empresa, o remanejamento
das famílias da zona urbana de Altamira que serão afetadas pela elevação do
nível do rio Xingu deverá começar em setembro. A previsão da Norte Energia é
que 5.000 famílias sejam removidas de áreas de risco da cidade.
Com informações da Folha SP
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